Cães, batalhões e a parole do Lacan
Ainda se discute se a tradução deve ser fiel à língua do original ou à língua do texto final. A tradução deve ser fiel à tradução em si mesma, que tem regras e modos próprios, que não são os da gramática ou mesmo da linguística. As línguas, tal como guardadas em gramáticas e dicionários, são detalhes importantes, mas contingentes na tradução. Não se traduz do francês ao português, mas de um ato de criação para outro. Quando muito, do francês do Lacan, do alemão de Hegel, do português do Guimarães Rosa ou do Machado, ou do Zé das Couves, para suas respectivas recomposições em outra língua. Parafraseando Saussure, se traduz literatura de uma parole a outra parole, e não mecânica e genericamente de uma langue abstrata a outra.
Um vínculo ou compromisso tão completo quanto possível da tradução com seu texto de partida é uma tarefa ou missão aceita pela maioria dos tradutores de carreira, não é preciso alardear isso. Quem alardeia é mentiroso ou inseguro. Chamar isso de fidelidade é só empobrecimento ou fuga do assunto. Fidelidade tem a ver com cães e batalhões, com moralismos e teologismos, não com a vida literária. É deprimente ver os resenhistas caçando infidelidades supostas ou reais, como paparazzi saindo das sombras para fotografar o patrão testando as molas do sofá com a secretária.
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