Frankenstein, Shakespeare e Le Pen

O Frankenstein de Mary Shelley é considerado por muitos como uma advertência contra a ciência sem controle. Dificilmente foi essa a intenção, Mary era uma fascinada pelas experiências de Galvani com eletricidade e dois anos antes de escrever a sua obra-prima havia sonhado que ressuscitava sua filha morta com o calor de uma lareira. A ciência em si deveria ser para ela mais uma esperança de vida que uma ameaça. De fato, com a ciência de hoje ela, provavelmente não teria perdido a mãe de complicações de parto que hoje são triviais, e talvez seus quatro filhos mortos prematuramente estivessem vivos. Não era retrógrada ou conservadora, mas filha de uma feminista e ela mesma tinha ideias avançadas para a sua idade, apenas 18 anos, e época. Naquele começo do século XIX, pedir a um médico que lavasse as mãos antes de fazer um parto era motivo de escárnio.

Tem sido usado como libelo contra a ciência por pobres de espírito, como podiam ter usado uma bula de remédio ou a fórmula da Coca-Cola para isso, com mais razão. Acabou batizando o Complexo de Frankenstein, uma enfermidade mental que consiste em achar que a culpa é meramente da ciência e não das pessoas que lidam mal com ela.

O Asimov fez contos sobre robôs que podem ser lidos como manifestos pela dignidade de todos os seres sencientes, os que têm consciência e livre arbítrio. Hollywood roubou o nome do Asimov para fazer um filme, Robôs, que é uma condenação do outro, visto como um estrangeiro em que não se pode confiar e se deve destruir. Algo mais próximo do seu público e suas limitações, do que contos contra a intolerância. A infâmia foi terem posto como protagonista um ator negro, para disfarçar a premissa racista do filme.

Porém, o Frankenstein era sim um conto moral contra a arrogância. A ciência era apenas um instrumento, um acessório. Como o golem, criado por magia. De fato, é um dos primeiros exemplos na literatura da afirmação de Arthur C. Clarke de que a ciência suficientemente avançada não se distingue da magia. Não é exemplo mais antigo em língua inglesa, Shakespeare já havia colocados autômatos feitos pelo homem, robôs!, numa das suas peças.

O crime do doutor Frankenstein, não foi, ou não foi só, ferir o “noli altum sapere”, o pecado de querer saber demais, mas o de querer fazer algo acima das possibilidades, sem medir as consequências e sem se responsabilizar pela sua criatura.

Se é para explorar os sentidos de uma obra-prima de uma adolescente cuja intenção primeira era divertir os amigos numa noite de final de verão, o Frankenstein pode ser lido como uma parábola contra a arrogância, o cinismo e a autocondescendência.

Contra algo assim como o faz hoje a Europa, incapaz de lidar com os resultados de séculos de colonialismo e exploração econômica do resto do mundo e respondendo com ainda mais arrogância contra as suas criaturas.

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