O rim de Adão e a tradução

Numa aula de teoria da tradução para alunos do curso de Língua de Sinais Brasileira (Libras), um aluno levantou uma questão ética interessante e com repercussões teóricas. O caso: num evento religioso, um dos palestrantes sinalizou em Libras outro órgão que não a costela quando mencionava o episódio bíblico da criação da mulher a partir do primeiro homem. Qual o papel do intérprete? Deve-se corrigir por considerar a falha como uma troca casual de sinais ou um ato falho significando sei lá o quê, e, portanto, irrelevante? Ou traduzir literalmente por fidelidade ao suposto conteúdo, mesmo que deixe mal o palestrante por distraído ou ignorante e deixar o intérprete ainda pior, por deixar mal o interpretado e por levar a culpa do erro (tradutor, traidor, etc., etc.)? Explicar ou comentar o erro? Considerar a passagem como metafórica e usar a metáfora tradicional, ou seja, “costela”, como está em todas as traduções bíblicas do episódio na nossa cultura? Ou considerar que o palestrante tinha alguma intenção importante e digna de ser transmitida ao trocar “costela” por, digamos, “rim”?

Veja-se que a decisão necessariamente rápida e aparentemente binária – isto ou aquilo – depende de vários julgamentos profissionais, práticos e éticos a serem realizados em segundos.

Agora, segundo circula pela Internet, alguns especialistas ainda sem nome, portanto, inverificáveis, vêm dizer que os sumérios, com os quais os autores do Gênesis conviveram intimamente na Babel/Babilônia, usavam o mesmo sinal cuneiforme para dizer “costela” e “poder de criar”. Talvez “costela” fosse mesmo linguagem figurada e sintética; enfim, algo como dizer “perna” para significar suporte vertical da mesa.

Enfim, W. H. Auden escreveu que o mau leitor é aquele que lê figuradamente o que é literal e literalmente o que é linguagem figurada. O tradutor ou intérprete arrisca-se sempre a ser este mau leitor ou a ser acusado disto, seja qual for o seu julgamento ou ação. O mau tradutor ou intérprete costuma ser, na verdade, aquele que não pensa as suas decisões ou que as considera banais, o que frequentemente leva a impasses e a soluções pobres.

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