O tráfico negreiro

(Trecho de Changó el gran putas de Manuel Zapata Olivella, Colômbia. Tradução de Francisco Manhães).

A fortaleza nasceu entre a margem do mar e a barranca do rio, pequena, perdida na costa. A princípio, a Loba Branca traz uns quantos ecóbios acorrentados que não falavam nossas línguas. Desembarcaram fuzis, canhões e tonéis de mantimento. Atarantados e receosos, vimos crescer as suas muralhas e casamatas brancas para que o Muntu apodreça por dentro.

As almas doentes, os corpos sem sombras, os malditos de Xangô movem-se silenciosos ao redor dos muros. Arrastam o olhar, com medo de dar de encontro com o rosto ofendido dos seus Ancestrais. Perseveravam em sobreviver, alimentando os vermes da perna já separada do sangue, os olhos abarrotados com as visões dos filhos e mulheres abandonados na aldeia incendiada. São os dejetos do tráfico negreiro que atiçam a fornalha da feitoria. As decrépitas descascadoras de coco, os plantadores de inhame e banana, os semi-homens úteis apenas para a carga e descarga dos navios negreiros… menciono os ibos, oiós e iagbas aprisionados em Nembe, a vila dos mortos nas bocas do Níger.

 

O distante, invisível, onipresente assédio dos tambores.

– Sete noites, mais uma noite!

A escuridão caiu cedo sobre a fortificação e a Loba baixa a bandeira com relutância. Iemanjá em agosto enche seus cântaros com a água salobra da foz e com contumácia molhava a noite, encharca a manhã, chuva que não foge do sol.

– Chegarão esta noite.

Garantiu o mesmo dois dias atrás. As palavras do Governador Diago de Dévora têm o sabor surdo da esperança perdida.

– Os escravos também desesperam.

As moscas grudam na carne quando os soldados a levavam à boca.

– Tivemos de recorrer às provisões reservadas para a travessia.

Olham os horizontes noturnos sem encontrar o fogo fantasma do navio. Coutinho insistiu em dar o relatório da meia-noite:

– Os escravos não dormem, atentos aos tambores. Nunca antes bateram com tanta ousadia. Tomamos todas as precauções contra um ataque, dispondo guarnições ao longo das galerias. O último mensageiro a descer veio de Oritsha e traz apenas pretextos já conhecidos por nós daqui: o tam-tam parece que não termina nunca. Não se pôde arrancar nada dos escravos isocos trazidos ontem em duas barcaças. Foram encerrados à parte, mas esses negros comunicam tudo com o olhar. O silêncio, os olhos são sua melhor língua, não importa de que tribos eles venham.

De Dévora avançou cabisbaixo pela rampa do passadiço perseguido por seus medos.

Com o sol a pino, o subordinado dá a ordem para que nos sirvam a única ração do dia.

Duas vezes soou o sino.

As Lobas Brancas começam a encher as bateias com a farinha de mandioca. Permaneceram longo tempo soltando os cadeados e ferrolhos.

– Eh! Comam!

O estampido dos rebenques não nos conseguiu fazer mexer. Nossas mulheres abraçam os pequenos que mamavam os seus seios murchos.

– Malditos axantis! Quando já se viu uma cadela faminta recusar a comida que lhe dá o amo!

– O que está acontecendo? – berra das muralhas a hiena chefe.

– Recusam-se a sair – latiu um dos cães.

– Garrote neles!

Os soldados armados correm pelas rampas em direção às casamatas.

– Arranquem eles daí a pauladas! Não tenham medo, eles têm correntes.

Permanecemos sentados, o olhar touro esvoaçando sobre os nossos ombros. Encurraladas contra a parede, as nossas mulheres fingiam entreter-se com a sua tristeza. Contamos com a escuridão não dissipada pela alta claraboia.

– Retirem primeiro às fêmeas – ordenou Coutinho.

Contamos as mulheres pelo barulho de suas pisadas… uma… três… quatro. Sentimos a mordida de seus rebenques sobre os nossos lombos. Só o pranto das crianças desvia o nosso plano.

– Imbecis! Vão deixar que eles morram de fome!

Subitamente soltamos os gritos. O salto de leopardo, a garra acorrentada racha a cabeça com os punhos. Duas Lobas rolaram uivando e as outras, surpreendidas, se defendem a golpes de rebenque.

Pela primeira vez, corre sangue que não é nosso!

– Atirem nas cabeças!

Cegos, confusos na raiva, alquebrados, ainda apertamos as suas gargantas.

A segunda descarga só encontrou bazimu, corpos sem magara.

– Acabem com os feridos.

Novos grilhões foram presos aos nossos braços e uma longa corrente atrela todas as argolas. Assim avançam nos seus truques para nos acorrentar e domar, mas também os filhos de Xangô aprendemos a morrer matando.

Outra vez o silêncio dos ecóbios, nem mesmo os crianças famintas atrevem-se a erguer o pranto. Lá fora, pela brisa, pela correnteza do rio, como todas as noites, retumba o chamado dos nossos tambores.

Os açoites do diola açulavam o canto e os remos de nossos ecóbios. Sete são os braços de Iansã que atalham a corrente do Níger. Mas não há Orixás nem barrancas que detenham o sangue do Muntu prisioneiro. Lentamente, desciam as canoas abarrotadas. As duas primeiras retraem os seus remos para não ultrapassar a barcaça de Ezili com o seu guarda-sol vermelho. Eram seguidas de perto pelos soyapayos com o cano de seus mosquetes apoiado na borda.

– Traz o maior carregamento que os meus olhos já viram! – bradou Coutinho ao contar até sete embarcações abarrotadas de escravos.

Da barranca, os negociantes queriam identificar ao longe as cicatrizes tribais. Cautelosos, os caçadores isus cobriam as cabeças com os chapéus velhos que lhes presenteiam seus amos portugueses. Separados, ansiosos, os ibos olhavam com desesperança: o seu povo sofreu a maior devastação de homens e mulheres ao longo de toda Calabar.

 

O curandeiro Obaluaiê chegou coxeando a Nembe de noite, acompanhado de Chankpana, que capitaneava as suas tropas de mosquitos. Logo invadem as choças, os quartos e as cozinhas de todo o povoado. Os Orixás sagrados escalaram os muros da fortaleza e penetram na mansão do Kilumbu Branco enquanto dormia. Obaluaiê revirou seus lençóis e nele pinta com carvão símbolos mágicos no rosto e nas costas; no dormitório dos soldados, experimentou os uniformes; na cozinha, destampa as panelas e guloso provou todas as comidas. Enquanto isso, Chankpana introduziu-se pelas ranhuras das celas e calabouços com o seu exército de mosquitos para chupar o sangue dos ecóbios agrilhoados. Só depois de tantas estripulias, despertam o Kilumbu Branco com quem beberam vários garrafões de vinho até embriagar-se.

Eia Obaluaiê! Esta noite ouviste do Kilumbu Branco as suas aventuras até quando os mosquitos de Chankpana, fugindo do fulgor de Orun, refugiaram-se nos cantos. Escutas dos seus próprios lábios as conhecidas histórias contadas pelos tuaregues do deserto, pelos poetas feiticeiros do alto Níger, pelos mercadores diolas e pelos cativos da fortaleza de Nembe.

– Fui companheiro de Vasco da Gama, o grande navegador. Fui médico da sua tropa, estive entre os primeiros que visitaram Ceuta. No rio dos Bons Sinais salvei os meus companheiros das pústulas que gangrenavam as bocas, cortando os seus lábios e remendando os seus dentes. Assim contará mais tarde meu amigo Camões. Foi naquela ocasião quando tu, Obaluaiê, admirado com a minha destreza, me confiaste teus poderes mágicos para curar os enfermos e ressuscitar os mortos. Com um astrolábio medi a altura do gigante Adamastor, cuja sombra nos oculta o sol por três dias, confundindo-nos na mais compacta escuridão. Náufragos graças a uma tempestade que Baco desatou diante do litoral, somos salvos por pescadores de Moçambique, que nos venderam a piratas turcos. Mais tarde, num mercado de Constantinopla, uma mulher me compra por algumas rupias. À noite, enquanto pródiga me oferecia o seu corpo e as suas carícias, ao despir-lhe o véu do rosto, descubro que a lepra corroía os seus lábios e o nariz. Minha ama e amante era a Morte! Só os poderes que me conferiste, amigo Obaluaiê, me salvaram a vida.

Durmam esta noite em sossegada bebedeira o Orixá e o seu discípulo, pois amanhã quando Chankpana solte as suas legiões de moscas, ninguém em Nembe terá descanso.

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