Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, fala de sua formação literária

Entrevista com Paulo Lins concedida a Ana Paula Alves Ribeiro e Francisco César Manhães Monteiro em 16 de maio de 2001, Santa Teresa, Rio de Janeiro.

 

Francisco Monteiro: O Schwarz (Roberto), numa crítica do trabalho que lhe fez, disse que havia identificado uma influência dos naturalistas….

Paulo Lins: Eu não sirvo para ser naturalista não… na verdade para este trabalho, eu pouco li os naturalistas… eu li muito os modernistas porque eu não tinha muito uma tragédia urbana, uma referência de uma tragédia urbana porque o que a gente tem mais na literatura é uma tragédia rural e eu peguei muito José Lins do Rego, muito Guimarães Rosa e na verdade assim, eu não tenho uma influência direta e assim, quando você está escrevendo um romance, tudo que vem na minha mão, eu lia. De Edgar Alan Poe à Hoffman, Gabriel García Márquez, Jorge Amado…. eu não segui um modelo literário…

FM: Por exemplo, você leu O cortiço?

PL: Li O cortiço… mas eu li O cortiço quando eu era menino e depois eu não reli para o trabalho. Quer dizer, eu reli para dar aula, eu sempre releio para dar aula. Mas para fazer o romance na verdade eu não tive… O Schwarz fala isso porque é um livro baseado na realidade, é um livro realístico, mas eu já discuti isso muito com ele e já falei que não tive a intenção de ser naturalista.

FM: Você mencionou a tragédia rural. O Alejo Carpentier, o cubano, você conhece…

PL: O que escreveu O Rei de Havana? FM: Sim…

PL: Acabei de ler um livro dele agora.

FM: O Carpentier… ele mencionou num ensaio que faltava uma literatura urbana na América Latina. De lá para cá até saiu alguma coisa. Basicamente, só Buenos Aires, que é uma cidade que tem uma cara especial, tinha uma literatura urbana, o Rio (de Janeiro) não tinha. Apesar de O cortiço e tudo mais, mas uma literatura urbana mesmo? E até o Lima Barreto é transferência de dramas rurais para o ambiente urbano…

PL: Ele tem sempre uma fuga para o rural, para o campo e até mesmo no Policarpo Quaresma ele vai terminar em Santa Cruz, não é isso? E sempre uma coisa que ele vai… o livro não se fecha dentro da cidade, dentro da urbe. Dá sempre uma fugida. O que eu tinha de tragédia? Eu tinha São Bernardo, do Graciliano, que é um tragédia. Eu tinha Fogo Morto, que é uma tragédia, um Brasil doente, um Brasil que se acaba, que todo mundo fica louco, todo mundo morre. Mas uma tragédia urbana, um universo urbano trágico eu não tinha uma referência e aí eu peguei mais os modernistas que traziam isso para mim e José Lins do Rego, mas na verdade assim… o que mais me influenciou foi Guimarães Rosa por causa da linguagem dele, não que eu tentei fazer o que ele fez por que é diferente. Ele trabalhava com as possibilidades da linguagem, quando ele fala sonhoso… é um radical de sonho e um sufixo de intensidade. Ninguém fala sonhoso, mas é possível falar sonhoso em língua portuguesa, ali ele pega e cria uma palavra com as possibilidades que a língua dá. Eu não, eu só peguei o coloquial de (extenso?) e taquei no romance, eu não fiz nada de novo, eu não criei nada.

FM: Deu para sentir uma influência do Guimarães por causa de alguns trocadilhos… “quando falha a fala, fala a bala”.

PL: Isso não foi nem do Guimarães, foi do Augusto de Campos (risos). Desculpe. Foi daquele livro… Conhece aquele poema Balalaica, do Maiakovski? A bala, bala… eu peguei daquele livro. Mas eu peguei muito do Guimarães Rosa.

FM: Esse trocadilho pareceu muito com uma poesia do Guimarães que quase ninguém conhece, em Ave Palavra tem poesias do Guimarães com muitos trocadilhos como esse aí.

PL: Eu conheço, eu tenho ele aí. Esse tem vários trocadilhos, ele trabalha muito com isso.

FM: Eu gostei muito da coisa do “lá embaixo” como lugar, topônimo, “lá em baixo”, “lá em cima”… lá também era assim ou foi uma invenção sua, como as coisas que o Guimarães inventava ou que algum escritor inventa?

PL: Existe lá… lá o pessoal fala assim. Na verdade, é o rio que desce. O rio é personagem do livro… o rio que corta… o rio é vivo. As referências… é pelo rio, então o rio vem lá de cima, o rio desce. Lá em baixo é onde o rio passa, então o pessoal lá da Cidade de Deus fala assim. Então eu aproveitei e usei assim e foi aquela dificuldade do começo, que eu queria dar referências, nome de lugar, mas eu achei melhor assim e ficou deste jeito.

FM: Ótimo. Você mencionou influências brasileiras… e da América Latina, Colômbia, Cuba, você tem alguma influência específica?

PL: Isso é uma grande crise que a gente tem aqui na academia. Eu estudei na UFRJ, passei na Unicamp junto com a Alba (Zaluar), fiquei no IUPERJ e tal e a nossa formação é totalmente europeia e a gente tá de costa mesmo para a América do Sul. Na minha formação, eu não tive nenhuma leitura da América do Sul. Não li, não li, eu realmente não li. A não ser os grandes… Borges (Jorge Luiz), Gabriel García Márquez, o poeta argentino.

FM: O poeta argentino?

PL: O do Jogo da Amarelinha….

FM: Cortázar (Julio).

PL: Isso. Mas um estudo da América do Sul propriamente dito, eu não conheço. Da Colômbia eu não conheço nenhum autor colombiano… conheço agora, mas na minha formação? O Brasil não é ligado à América do Sul, o Brasil está totalmente ligado à Europa e academia é assim, você tem que estudar…

Ana Ribeiro: Os franceses…

PL: Isso.

FM: O curioso, e você não mencionou, é que quase todos os autores latino-americanos, e os brasileiros também são latino-americanos, mencionam o Faulkner, que ele cria um espaço ficcional próprio, ele cria uma cidade com nome absurdo, mas… inspira Macondo e também Cortázar menciona o Faulkner… você também conheceu o Faulkner?

PL: Não (risos). Tá surpreso?

FM: Não. É que ele influenciou muito na questão de criar uma cidade, um espaço, de ambientar, enfim… ainda nas influências, qual seria aquele que você realmente…

PL: José Lins do Rego, com Fogo Morto. Acho aquele ali o grande romance da literatura brasileira… é de uma beleza, de uma cruel beleza, mostra o Brasil doente. São três histórias que se cruzam, a primeira é a do mestre José Amaro, depois a do seu Lula e a terceira do Capitão Vitorino Carneiro da Cunha. São três histórias que se cortam e também a linguagem que ele usa através de diálogos, a narrativa é toda entrecortada de diálogos, eu acho que foi a grande influência. E Crime e Castigo, de Dostoievski. Ilusões Perdidas, de Balzac. Estou falando de livros que eu li quatro ou cinco vezes. Fogo Morto eu li cinco vezes. Dostoievski com Crime e Castigo eu li quatro ou cinco vezes e tem outros livros que eu li muitas vezes. São Bernardo eu li demais também. Eu leio livro como quem escuta música. Você não coloca um CD e fica assim, escutando? Eu leio assim.

FM: Você falou da música. O Ulloa, um amigo do Darío lá de Cáli tem um livro chamado La Salsa en Cáli, é um trabalho sobre a música e os aspectos sociológicos da música. Você menciona bastante a música no seu trabalho, qual é a sua relação com ela?

PL: Quando eu era adolescente, lá em Cidade de Deus, o único contato que eu tive com a arte foi através da música, com Caetano, Gil e nesta época a música popular brasileira estava com uma força grande, o pessoal estava fazendo, estava acontecendo, e eu não tinha acesso a livros, não tinha acesso a cinema, não ia a cinema. A única coisa que chegava era a música através daquela rádio… que tocava MPB… nacional, uma FM que tinha…

FM: Acabou em 1982, era a Nacional FM.

PL: Isso. Então, eu ouvia muito isso e gostava muito da música popular e me apaixonei pelo Caetano Veloso, pelo Chico Buarque. Então, esses caras falavam muito das referências que eles tinham por causa da leitura e eu comecei a ler muito por causa deles, foi a música que me levou para a literatura. Eu queria ser músico, queria ser letrista, fazia letras de música, samba- enredo no colégio, nas escolas de samba da Cidade de Deus, mas foi por causa desses caras que eu fui para a literatura. Então, a música tem um peso muito grande na minha vida, uma influência muito grande, quer dizer, não uma influência, a música é um canal que me levou à literatura.

FM: O Chico Buarque influenciou o romance, não o romancista?

PL: É, na verdade eu nem gosto muito da literatura do Chico Buarque. Não é coisa que realmente faça a minha cabeça, não.

FM: Ele é um letrista fantástico… outra coisa que eu reparei foi a ausência da religião católica. A não ser que seja uma coisa muito rara, mas ela quase não aparece no romance. É uma opção pessoal ou é realmente assim lá? Aparece muito a umbanda mas quase não aparece a religião católica. A presença é tão mínima, realmente, lá?

PL: Até que tem. A igreja até fez parte da minha formação, fiz parte de grupo jovem, mas não foi por nada não. A bem da verdade, esse negócio de falha a fala eu especifico bem. Eu trabalhava com a Alba e a pesquisa foi sobre o crime especificamente. Então, é assim: o meu assunto é o crime e eu vim aqui por isso, isso na página sete ou oito… Então, eu coloquei direto a questão da criminalidade. Não sei por que não aparece… e, engraçado, não aparece. A igreja lá foi importante, padre Júlio.

AR: No começo do livro aparece o padre Júlio.

PL: Mas não sei por que. A igreja na Cidade de Deus foi muito forte, na verdade, e o padre Júlio foi uma pessoa muito importante na Cidade de Deus. Mas eu não sei por que não botei.

FM: Talvez seja pelo meio específico. Policiais, pessoas que estão na linha de frente, bandidos geralmente tem esta coisa do São Jorge, por exemplo, que você menciona muito. Mas é o São Jorge católico na verdade.

PL: E na história eu coloquei Ogum. A umbanda e o candomblé tem mais presença do que a igreja católica, porque essas religiões afro não têm preconceitos, eles aceitam qualquer um. É aberto, você chega lá e não precisa colocar roupa, todo mundo chega lá e tem a consulta, é aberto. Então, eu acho que os bandidos, os travestis, qualquer tipo de excluído se encontra lá. Na religião afro-brasileira, tanto a umbanda quanto o candomblé. E a religião católica tolhe um pouco. A igreja católica, como a igreja evangélica, discrimina, ela faz seleção, não faz isso não faz aquilo, não pode isso, não pode aquilo. Na umbanda, todo mundo tem proteção, todo mundo reza, não tem problema… (risos).

FM: E aí Ana Paula, alguma questão?

AR: Tenho uma sim. A influência antropológica e a coisa da história de vida. Primeiro, eu gostaria que você contasse um pouco da sua vida na Cidade de Deus e como você chegou ao romance, um pouco desse percurso.

PL: Na verdade quem me empurrou para fazer o romance foi a Lourdinha (Maria de Lourdes da Silva), eu fui casado com ela. Eu, nessa época, trabalhava na Universidade e trabalhava com poesia, nunca havia pensado em escrever um romance. E a Alba queria pessoas para trabalhar na Cidade de Deus que morassem lá e eram poucos universitários que moravam na Cidade de Deus naquela época, hoje deve ter mais, mas, na época, eram só cinco, seis. E a Lourdinha queria participar e eu namorava a Lourdinha. E, como era difícil ela ir para lá entrevistar bandido e eu conhecia tudo quanto era bandido…

AR: Começou a acompanhar a Lourdinha…

PL: Comecei a acompanhar a Lourdinha e acabou que todo mundo saiu e ficou só eu e ela durante dez anos com a Alba. Agora, a antropologia teve muita influência. Teve muita influência porque eu tinha que ler os trabalhos, os livros que a Alba passava, linguística. Na verdade, a parte da linguística na antropologia foi o que mais me influenciou. Bakhtin, Hannah Arendt. Sabe, eu li esse pessoal mas eu nunca, nunca…

AR: Nunca te deu…

PL: É, nunca me pegou… a Alba queria que eu fizesse uma, uma…

AR: Etnografia.

PL: É, mas… não dava pra mim não.

AR: Tudo bem, conta um pouco da tua infância na Cidade de Deus, como a sua família foi para lá…

PL: Eu morava aqui no Estácio e meu pai morava numa casa alugada, porque baiano, né? O Estácio era o lugar que recebia os negros. Aquela área ali da Gamboa era que recebia os negros no início do século passado, os negros iam para aquela área do Estácio, da Central e como todo bom baiano ele morava no Estácio, eu nasci ali. Aí teve a enchente de 66 (ou 76?) que forma barra pesada. Então teve desabrigado. O meu pai conseguiu uma casa com pistolão. Ele chamava de pistolão. (risos)

Ele era pintor de parede, trabalhava na casa de um sujeito e aí o cara conseguiu uma casa pra ele.. Aí, a gente pegou e saiu daqui do Estácio que era, bem, não tinha asfalto, aquele negócio todo, não tinha essa… essa, esse… era tomado de gente. Quando eu cheguei na Cidade de Deus, era o paraíso. Por que eu morava em frente ao Rio e tinha boiada. E a boiada que passava lá. E tinha um lago, um tinha um laguinho. A gente vivia o dia todo na rua e nem comia em casa porque tinha manga e muita fruta, né? Era muito bonito lá, na verdade. Mas era violento já. Porque aqui também é. No Estácio já era violento. A brincadeira de rua já era violenta. E isso me deixou… eu aprendi na infância a conviver com a violência. Tipo, aprender a bater, aprender a brigar. Sabe? Tive que fazer o jogo da terra. O jogo da comunidade. Eu sempre vivi na violência. Eu fico pensando aqui, assim, hoje um morador de classe média que nunca morou numa favela me diz, assim, “vem cá, quantas pessoas você conheceu que morreu?”

AR: (risos) Puxa!

PL: Aí o cara aqui fala assim “eu conheço, é… deixa eu ver, é… uns dois ou três”. Aí ele fala: “foi como?” E eu: “acidente de carro”. Eu conheço mais de mil. (risos)

AR: É melhor falar dos que estão vivos.

PL: Não! Eu conheço mais de mil pessoas que morreram, entendeu? E… é isso! Depois de tanto tempo, depois do que eu vivi eu era muito pacato. Sempre fui muito ligado à arte. Eu era pequeno, mas depois que eu cresci (porque eu sou alto, né?), aí o pessoal começou a me respeitar. Mas eu apanhei muito. Era aquela brincadeira de briga mesmo. Mas eu nunca me envolvi com a criminalidade.

(O telefone toca e ele deixa cair na secretária eletrônica. Paulo Lins diz que pode continuar a entrevista, mas para para ouvir a mensagem.)

PL: Mas aí quando eu cresci e fui ser fuzileiro naval, aí eu fiquei forte, fiquei alto e comecei a…

AR: Impor respeito?

PL: É. Impor respeito através da… da…. porque eu fui ser militar na época da ditadura, que é uma coisa que impunha respeito. Aí, eu fui pra universidade, fui dar aula na Cidade de Deus e aí a minha vida ficou…. aí sabe, meus amigos de infância, aqueles que me batiam ficaram meus amigos e coisa e tal. Mas a minha infância foi muito dura, foi muito violenta. A sorte é que eu tinha um irmão, ou melhor, tenho um irmão. Ele mora na Cidade de Deus ainda e meu irmão era muito violento. Depois de um tempo ninguém mais me batia, porque…

AR: O seu irmão era…

PL: É! E também não podia voltar pra casa chorando.

AR: Você também apanhava.

PL: Apanhava. Então, a violência sem igual, sem limite. Mas depois que eu fui pra Universidade e fui dar aula lá, fiz parte da Associação de Moradores. Tenho dois filhos feitos lá. A Mariana foi feita lá, o Frederico foi feito lá. Casei, separei, casei de novo, separei, casei de novo…. (risos)

FM: Uma coisa que aparece muito no romance é tensão racial. Mas não tanto entre negros e brancos. Mas entre nordestinos e negros. Como é isso?

PL: Isso é uma questão muito forte, é um racismo muito grande. Nordestino e negro tem um racismo muito forte. Não é só em relação ao branco com o negro. Mas o negro também é racista em relação ao nordestino. Você vê que até as amizades são divididas. Tem um espaço dividido. Não se cruzam muito não. E o branco e o português também. Porque o nordestino é índio. Na verdade, se a gente for ver bem, nordestino é descendente de índio. São os caiçaras aqui coisa e tal. Há um racismo muito grande.

FM: Há pouco tempo, apareceu uma reportagem sobre uma favela que não tem violência. Mas que aparentemente era só de nordestinos. Expulsaram os negros de lá. Ficou implícito, não tiveram a coragem de falar isso. Na verdade, não havia mais a questão racial porque uma das etnias foi eliminada. Tecnicamente…

PL: Qual favela?

FM: Não me lembro agora. Mas saiu no jornal faz um mês mais ou menos.

PL: Rio das Pedras?

FM: Acho que sim.

PL: Rio das Pedras é a favela mais violenta que existe. Lá tem a mineira. O negro não foi eliminado. Ali foi que nem na Rocinha. Foi formado pelo pessoal do Nordeste que veio pra cá e foi crescendo… Mas lá existe a mineira. Existem, ali, os justiceiros, a polícia mineira. Não existe bandido, mas tem justiça com as próprias mãos, entendeu? Não é assim uma maravilha, existe uma polícia mineira ali que não deixa ter crime. Quem cometer um crime ali paga com a vida. Por exemplo: nas favelas do Comando Vermelho também não tem crime dentro da favela. O crime é só com quem está envolvido. Não tem assalto, não tem roubo, não tem estupro…

AR: Aliciamento de menor.

PL: Não tem. O crime só tem… Só tem confusão quando tem guerra. Mas é uma lei imposta pelo poder paralelo que existe também em Rio das Pedras.

FM: Uma coisa curiosa é o nome de favela aqui no Rio. Em geral é Gardênia Azul, Jardim Catarina… Quanto mais bonitinho o nome, tem um problema. Os nomes são bonitos, mas os lugares são ruins. Cidade de Deus, de onde vem?

PL: Ih! Rapaz, não sei não. Porque foi uma coisa da Aliança para o Progresso que existia nos Estados Unidos e no Brasil. Fizeram a Vila Kennedy, Cidade Alta, Cidade de Deus. Eu não sei porque criaram como Cidade de Deus não.

FM: Porque há um livro de um italiano, um monge italiano – Campanela – que inventou uma Cidade de Deus. Seria uma utopia. Cidade planejada, toda certinha, bonitinha.

PL: Eu li esse livro. Mas foi Santo Agostinho, não?

FM: Bem, se escreveu como utopia foi o Campanela. Ele expressou uma cidade livre. Nem que fosse ironia, na verdade, uma utopia frustrada.

PL: Eu não sei porque deram esse nome não. Não tenho a mínima ideia. É bom procurar saber por que deram esse nome. Mas fala, vai lá.

FM: Ana Paula…

PL: Você ficou um pouco frustrado pela minha relação com a literatura sul americana e latina?

FM: Ah! Não! Não, porque, na verdade, em geral pro pessoal que tem hoje isso não é europeizado. Em geral, o pessoal mantém a sua autocrítica em relação a isso. Não percebe que lhe falta o lado latino americano. No seu caso foi uma deficiência ao longo do….

PL: Que eu sou contra isso. E dá uma certa revolta porque você não tem intercâmbio. A Academia está voltada pra Europa. Por exemplo: a literatura africana, você não tem literatura africana aqui no Brasil. Você não tem um pensador africano. Eu tive na África agora e tem uma… eles tem uma visão do Brasil. Os africanos amam o Brasil. E acho que o Brasil na questão racial que vai, que vai… é o país que pode evoluir na questão racial. A salvação dos negros está no Brasil.

FM: Estamos ferrados! (risos)

AR: Como é que você vê a questão racial hoje no Brasil? A gente falou das tensões na Cidade de Deus

PL: A (organização – esta palavra está inaudível) muito ruim no Brasil hoje. Continua, né? Uma dificuldade muito grande de ascensão social. Porque é grana mesmo. É racismo brabo. Você vai em lugares de cultura como, por exemplo, num cinema, num teatro, na universidade e você não vê pessoas negras. Você vê nas universidades, mas só nos cursos de Ciências humanas, Letras…

AR: Sociologia e História…

PL: Sociologia e História. Então, o racismo no Brasil é uma coisa forte. É muito forte. No mundo, a situação do negro continua mal.

FM: Segunda-feira, uma professora amiga minha fez o seguinte comentário: que uma aluna tinha dito “professora, temos um professor negro na universidade”. Como se isso fosse uma coisa que é, assim, surpreendente.

PL: Mas é surpreendente mesmo. Na política…. Você já viu empresário negro? Você não vê. Você não vê latifundiário negro.

FM: Agora está aparecendo o negro na publicidade. Mas é em multinacionais. Empresas brasileiras…

PL: Mas é verdade. A situação do negro no Brasil continua a mesma.

FM: Na orla, por exemplo, tem aquelas estações com desenhos ali. Parece só sueco andando pela calçada segundo as ilustrações. Rapazes negros não têm. São morenos, na verdade. Porque a questão de… criaram uma imagem, uma auto imagem do negro… da criança que brinca com a boneca loura. Isso não se vê na televisão.

PL: A mídia é muito racista. E não é só porque “a questão não é só racial, é social”. Mas poxa! Você não vê negro com dinheiro, grana. Só os artistas do futebol. Só pode ascender na área cultural e, mesmo assim, popular. Você não vê um negro artista plástico, você não vê um negro pianista clássico, você não vê um escritor. Qual o escritor negro que você conhece além de mim?

AR: Elisa Lucinda.

FM: A questão é que até existem artistas, escritores negros. Mas é justamente a visibilidade.

PL: Não, mas são invisíveis mesmo. Eu sei que existe. Mas, o que está na mídia?

AR: Só você e Elisa Lucinda que eu me lembre.

FM: Não é típico, embora até (inaudível) como raça no Brasil nós não somos típicos. Um escritor é apenas um escritor. Se for negro é um escritor negro.

PL: É, exatamente.

O telefone toca novamente e ele para para ouvir a mensagem na secretária eletrônica. FM brinca dizendo que é o francês de novo.

FM: Não respondeu sobre cinema que, na verdade, (inaudível) é pequena, embora todo mundo que veja uma narrativa mais, assim, dinâmica tenda a falar que a linguagem é cinematográfica. Mas, então, você não teve nenhuma influência do cinema diretamente?

PL: Não. Do cinema não. Apesar de que todo mundo do cinema falava isso. Mas minha influência foi diretamente da literatura. Eu não usei, não tive nenhuma influência. A menos que eu não perceba, mas a linguagem oral, a questão da validade no meu trabalho foi influência dos livros, direta. Guimarães Rosa.

AR: Se, além da literatura, mesmo você não tendo a influência do cinema, tem aquela coisa de você ter vivido aquilo tudo. Acho que fica muito vivo na nossa memória. É quase cinematográfica. É o que a gente vê e o que a gente vive. Agora, eu não sei se você concorda comigo, mas tem o fato da influência cinematográfica que você diz que não tem, mas tem uma outra coisa. Como é que a tua vida era antes de Cidade de Deus e depois de Cidade de Deus? Antes do barro você já fez o panorama. Você tem, hoje em dia, envolvimento com o cinema?

PL: Tenho.

AR: Conta um pouco isso pra gente.

PL: Quando eu lancei o livro, na verdade, eu já não morava mais na Cidade de Deus. Eu morava aqui em Laranjeiras. Era casado com Assunção e dava aula em Angra dos Reis. Dava aula lá e dava aula aqui. Eu já tinha chegado a classe média baixa. (risos). Eu já militava na poesia. Fazia recital de poesia. Já havia publicado livro de poesia. Então, o pessoal do meio já me conhecia. A universidade, os poetas… Então, o que mudou mesmo foi quando eu fiz o romance e o pessoal do cinema começou a me chamar pra fazer roteiro. Que é muito mais fácil de fazer e você ganha muito mais dinheiro. Aí, eu estou fazendo roteiro de cinema.

AR: Isto é ótimo! Quais os roteiros que você já fez e agora em qual você está trabalhando?

PL: Eu ajudei no “Orfeu” do Cacá Diegues. Fiz um segundo roteiro que foi com Lúcia Murat. Não está filmando ainda, mas já está pronto o roteiro que é a história de um preso político e de um preso comum na Ilha Grande. Fiz agora a História de Dé, que também tem relação com o Comando Vermelho. Estou fazendo um que é segredo. O diretor não pode dizer, não pode saber que eu… porque envolve um monte de gente. Estou trabalhando agora com o Cacá Diegues, num filme sobre o carioca. É o primeiro filme que eu estou fazendo que não envolve violência. (risos)

AR: A violência começa a sair de sua vida.

PL: É. E amanhã eu vou publicar um conto no… Amanhã já está no…

AR: Já está publicado no site.

PL: É. Está no site. Este conto também não envolve violência. Apesar de ser uma estória que se passa na favela, no morro, não tem nada a ver com traficante, boca-de-fumo. São só dois compositores que vão disputar um samba enredo.

FM: Qual a sua percepção da Colômbia? O pessoal no Brasil só fala da Colômbia basicamente em violência. O que você pensa da Colômbia?

PL: Eu nunca parei pra pensar na Colômbia, na Venezuela, nem no Uruguai e no Paraguai. Eu não tenho uma… Simplesmente não interessa. Bem, não é que não interesse. Simplesmente… Por exemplo: quê que vem da Colômbia é… quando é que a Colômbia é notícia? Quando é que você tem um livro…? É claro que existem autores por lá. O que eu quero dizer é que o Brasil não tem relações com os países da América do Sul, América Latina. Não tem. Eu me interesso muito mais pela França, Portugal, do que pelos países vizinhos. Você tem influência… tem alguma ligação com a Colômbia? Eu passei a ter mais contato com alguns países aqui da América do Sul por causa da Assunção. Por causa da língua hispânica. Por que ela falava espanhol e tinha muitos amigos. Tem duas uruguaias que fizeram mestrado no IUPERJ e que são amigas dela. Mas, assim,… eu não acompanho. Eu recebo livros da França direto. Recebo livro em inglês direto. Mas, da América do Sul eu não tenho nada.. Não estou falando da América Latina. É uma autocrítica que eu estou fazendo.

FM: E Cuba, por exemplo?

PL: Cuba já é diferente, né? Cuba é um país que… (risos)

FM: Tem uma comunidade de Iorubá…

PL: Exatamente. Tem uma relação dos negros. Acho que também tem isso. Eu estou tendo muito mais ligação com a África do que com os países da América do Sul. Eu estou fazendo contato com o pessoal da África, Angola. Vou fazer um filme com um angolano (ele cita o nome do angolano, mas está inaudível). A gente vai fazer um filme sobre o que vai se passar depois da guerra lá em Angola. Estive em Cabo Verde. Estou tendo muito mais contato com países africanos do que com os países da América do Sul. Agora.

FM: E você tem algum plano, quer dizer, você pensa, assim, em se ligar mais à América Latina?

PL: Sinceramente, não. Eu não sou motivado pra isso. Eu não tenho motivos pra isso, na verdade. E nenhum brasileiro tem. Muito difícil encontrar autor brasileiro que… Por exemplo: os meus amigos que fazem literatura, os poetas e tal, eu não vejo ninguém falando sobre isso. Tipo: “ah! Eu li um livro colombiano legal”. E as próprias editoras não traduzem. Pra você ter uma ideia, eu nunca vendi… E também acho que é isso que acontece com a América do Sul toda. Por que nunca fui traduzido para um país da América do Sul. Quem comprou foi a França, Portugal, Espanha, Estados Unidos. Nenhum país da América do Sul comprou os direitos do meu livro.

FM: Você gostaria de tradução para países aqui da língua hispânica?

PL: Eu fui traduzido pra Espanha. Eu não sei até onde que vai o alcance dessa tradução. Mas um editor da América do Sul… Nenhum país da América do Sul comprou os direitos do meu livro. Eu não tive nenhuma reportagem, nenhuma matéria de jornal. Só teve um. Não sei se foi Paraguai ou Uruguai que citou, uma crítica que saiu. Nunca fui entrevistado por jornalista sul- americano.

AR: Eu acho que a gente está inaugurando essa nova fase em sua vida.

PL: Eu acho que sim (risos)

PL: E é até bom. Só tem Gabriel Garcia Marques na Colômbia, né? É colombiano o Gabriel G. Marques, não é?

FM: É. Ele está monopolizando, pelo menos externamente, a imagem da Colômbia como romancista, como ficção colombiana.

PL: É, só ele. E deixa eu ver quem é que eu conheço. Não vamos falar dos grandes. Eu me lembro que uma vez saiu daqui, acho que foi o Paulo Roberto Pires… Teve um sujeito que lançou um livro, realismo fantástico que é uma característica da literatura latino-americana. E ele foi contemporâneo de Guimarães Rosa. Então, ele lançou um livro… e agora ele está fazendo 80 anos e tal, e esse livro foi descoberto aqui numa biblioteca, na biblioteca nacional. O Paulo Pires leu o livro e gostou do livro. “Poxa, tem um sujeito com influência da literatura…” O cara estava vivo, lá no Rio Grande do Sul. O Guimarães Rosa quando leu o livro do sujeito detonou. “Você tá falando besteira, isso é coisa de índio.” O Guimarães, que já era um grande escritor na época, detonou o cara. Detonou o sujeito. O cara nunca mais escreveu. Eu não sei o nome do cara. Quem sabe isso é o Carlos Sussekind que me contou essa história. E os críticos brasileiros você não vê, você não vê… As editoras não traduzem. Qual o livro que a Cia. das Letras traduziu? Só grande. A Record, A Brasiliense… Não tem. Você não é motivado pra isso. A própria mídia, a televisão. Parece que é uma coisa pensada. Acho que isso é de caso pensado.

FM: Tem mais uma coisa que é tipo arrogância: tem um professor da UERJ, por exemplo, que disse que só trabalha na América Latina com Borges porque o Borges é o menos latino- americano de todos. Isso só prova que não existe nada. Nem América Latina, nem Borges, nem coisa nenhuma. Até essa coisa voltada para o europeu que ele vê no Borges, que não é tanto assim também, é uma coisa muito latino-americana. Uma característica forte da Argentina é pensar que é europeia. Isto é uma questão muito latino-americana da Argentina. Quem é europeu é europeu. Agora, quem pensa que é europeu, é latino-americano. Tem a piada do Soriano que fala sobre isso: o argentino é um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês. Deve ser isso, né?

PL: E dizem que o argentino é o porteiro que quer ser dono do prédio. (risos)

PL: Mas, na poesia, por exemplo… a poesia foi muito forte porque eu já militava na poesia em 86 e foi aquele paticumbum da poesia concreta. Foi a última vez com discussão, foi a última vez com polêmica com o Roberto Schwarz, o Augusto de Campos. Aquela confusão que saiu tiro pra tudo que foi lado… E foi uma época de poesia ali, bastante poesia. Eu fiz poesia, eu escrevia poesia, convivia com poetas, andava com poetas e dava aula. Eu não lia quase romances. A minha literatura era poesia. Fazia estudo, fazia avaliação de versos. Chegava na faculdade fazendo avaliação de verso com os colegas de lá. A poesia me deu muita…

Ele continua citando Drummond, Antunes, João Cabral e Paulo Leminski.

FM: Essa coisa da discriminação literária de publicação não entrar no Brasil acontece pelo próprio Brasil, por exemplo. O Drummond na Folha de S. Paulo não entra porque o pessoal de lá, os concretistas, tem o seu monopólio. A única vez que vi o Drummond recentemente na Folha de S. Paulo foi quando um argentino escreveu uma resenha e mencionou o Drummond. Aí tem que ser um estrangeiro a mencionar o Drummond na Folha de S. Paulo.

PL: Olha, tem uns poetas por exemplo: o Heitor Ferraz, o Augusto Márcio, os poetas que estão lá em São Paulo e que estão até hoje…tem lançamento por aí deles… eles têm ódio dos concretos. Porque eles monopolizaram São Paulo e tudo o que era bom era o que parecia com eles. Então, era Paulo Leminski, Arnaldo Antunes e acabou. Eram eles e os novos Paulo Leminski, Arnaldo Antunes e… tinha mais quem? Não tinha mais ninguém. Então, toda semana tinha um poema concreto na Folha de S. Paulo. Acabaram com Chico Alvim, Ana Cristina César, o Cacaso… esses poetas, os marginais da poesia marginal detonaram. E, hoje, você vê aí que o Chico Alvim foi lançado agora. O Roberto escreveu um artigo sobre ele maravilhoso. O Cacaso está sendo lançado de novo. E foram apagados por essa ditadura da poesia concreta. Isso foi forte em São Paulo. A poesia é uma das coisas mais é… é… Os poetas são arcaicos. É grupo. Tem mais poeta do que leitor. Pra você ter uma ideia: é um gênero literário que não chega. Tem muito pouco leitores. A tiragem de um livro de poesia é de mil, no máximo, dois mil livros. E não vende. E o poeta acaba dando os livros dele. É uma confusão, é uma brigalhada. É um falando mal da vida do outro. São grupos brigando pra lá e pra cá. Com o romance isso não acontece não. Romancista não tem assim… é… grupos de romancistas. Mas poesia tem.

AR: Não tem rixa…

PL: Não tem.

FM: Uma coisa que eu fico preocupado, como seria a recepção de um leitor não colombiano, mas, por exemplo, um leitor inglês ou francês de achar como na literatura colombiana aquilo não é real. Que aquilo ali é uma coisa exagerada. Aquela violência toda, aquele non sense. Você se preocupa com isso, de parecer que é artificial, que é uma invenção?

PL: Não. Acho que não tenho esse tipo de preocupação. Nunca me preocupei com isso não. Quem sabe, né? Quem sabe o que eles fazem? (risos)

FM: Mais um autor, o Naipaul e o Gore Vidal e vários outros dizem uma coisa muito parecida: que a literatura americana era falsa, que era, na verdade, covarde porque no lugar de denunciar as coisas reais ficava inventando besteiras, inventando realidades que não existiam. Na verdade, parece que eles não conseguem perceber que aquilo ali é real.

PL: É, mas a literatura não tem o objetivo de denunciar nada. Quem tem que denunciar é a polícia, são os políticos. A literatura é entretenimento. E você pode fazer o que quiser, você pode criar o que você quiser. A literatura é arte. Então, quando você determina uma função para a literatura, ela perde o seu valor. Então, se o cara quer fazer um romance denúncia, quer denunciar, quer fazer alguma coisa, ele que faça. Mas que não tenha que se fazer. Você vê, por exemplo, vamos ver um autor: o Gabriel Garcia Marques, por exemplo. O Kafka, por exemplo. Por que o Kafka escreveu Metamorfose? Porque ele leu o Gabriel Garcia Marques “ah! pode fazer isso? Pode?! Quer dizer que vale isso aqui? Vale o cara virar maluco e não sei o quê, então tudo bem”. E ele foi lá e fez Metamorfose. E denuncia alguma coisa? Não. É a relação de uma família, o cara fica preso ali. Edgar Alan Poe, por exemplo, o que ele denuncia ali? Só relação. São os conflitos internos… a literatura não tem propósito nenhum de denunciar, de ser aquilo, de ser assado.

(Paulo pede uma pausa para telefonar.)

FM: Você falou de literatura de cinema, roteiros, mas e a literatura mesmo?

PL: Eu estou afim de começar a escrever um romance hoje.

FM: A entrevista é que motivou, você já esteve pensando ou foi a ressaca? (risos)

PL: Não. Deu vontade porque eu terminei um roteiro agora e não tem mais nada pra fazer e eu tô aqui de bobeira. Aí, eu pensei assim: “vou escrever um romance”. (risos)

AR: E a poesia? Você continua fazendo?

PL: Poesia… eu estou fazendo uma letra de música com Pedro Luiz. Comecei a fazer um poema pra ele musicar.

AR: Dessa nova geração de música, o que você mais gosta de escutar?

PL: O Rappa, Pedro Luiz e a Parede. Gosto mais de quem? Gosto de muita coisa, mas a minha preferência é o Rappa, o Pedro Luiz e o Bill. O pessoal do rap, os Racionais. Adoro os Racionais. Adoro MV Bill. Gosto muito de rap.

AR: Conheci MV Bill lá em Vigário com o pessoal do Afro Reggae.

PL: É. Eu gosto do pessoal do Afro Reggae. Aliás, eu gosto dos Racionais demais, gosto do Bill, gosto do Rappa. O Rappa é o meu predileto. E gosto muito do Pedro Luiz.

AR: Eu tenho que confessar também que o pessoal do Rappa é o meu predileto. Gosto muito do Farofa Carioca.

PL: Também gosto do Farofa Carioca. Eu fiz um clipe do Rappa, né? “A minha Alma”.

AR: É demais!

PL: E somos amigos, né?

AR: Não estou lembrando de mais nenhuma pergunta. Você está Paco? A gente invade a sua casa, liga um gravador, tira foto. (risos)

PL: Normal.

FM: Tem uma coisa que… Qual a sua relação com tradutores? Você gosta de colaborar com eles ou…

PL: Eu colaboro direto com os meus tradutores, até que fica amigo.

 

Recommend to friends
  • gplus
  • pinterest

About the Author