Pierre Menard, o tradutor de Borges

Jorge Luis Borges já postulava o aspecto tradutório dos supostos originais e o valor das traduções para a compreensão da literatura, no conto ensaístico do Pierre Menard, por exemplo. Também encontramos este aspecto tradutório na relação entre ficção e artes visuais, que se fecundam entre si, sobretudo em épocas de transição e crise de modelos, como afirmam Ítalo Calvino a César Aira.

A literatura biográfica, sobretudo, tem esta qualidade indireta ou de segundo grau e usaria recursos equivalentes a recursos pictóricos, como a perspectiva e o trompe-l’oeil, para representar o vivido. São características comumente associadas à tradução, sendo explicativa, adjetiva e inflacionária em relação ao seu objeto.
A literatura ficcional narrativa vai além da mera transcrição ou transposição, e suas relações com a realidade que narra e descreve assemelham-se às que a teoria da tradução estuda entre literatura original e traduzida.
Assim como as línguas são materialmente diferentes, também a ficção necessita uma espécie de correção da paralaxe. Uma translação necessária de meios materiais, mais radical do que quando se faz a transcrição em aquarela de uma pintura a óleo, ou de uma peça feita para flauta para piano. Há um claro vínculo de origem e uma intervenção necessária na passagem de meio material, da vida ao texto, uma espécie de correção da paralaxe.

Não é pura mimese, mas transposição com restrições físicas, correções, desvios propositais, e, mesmo, polimento e embelezamento. As chamadas autoficção e exoficção, por exemplo, seriam equivalentes na narrativa das belles infidèles na tradução, ou do in figura e mise en abîme na pintura.

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