Saudade e tradução

Insistem que a palavra “saudade” é intraduzível, o que sempre me surpreende. Primeiro, porque palavras isoladas não são traduzíveis por definição; são problemas de lexicografia, talvez, não de tradução. Segundo, por ser um termo abstrato, que pode ser abordado semanticamente, ao contrário de termos da chamada “realia”, ou seja, da realidade material, que exigem contextualizações longas e inexatas. Acho difícil lidar, por exemplo, com a palavra filandesa que descreve o pôr-do-sol que antecede aquelas longas noites árticas de inverno. Felizmente, costumo traduzir de línguas com culturas materiais bem semelhantes à do Brasil. Em espanhol, por exemplo, há várias palavras ou expressões equivalentes à palavra “saudade”, como “nostalgia”, “echarte de menos”, “extrañarte”, que também podem soar estranhas, por sua vez, se “traduzidas” de volta ao português do jeito desastrado que chamam de “literal”. Em galego, parece que há ou houve a palavra “soïdade”.

Adicionalmente, o mito ou conceito da “saudade”, se admitirmos que é mesmo intraduzível, também teria chegado truncado ao português do Brasil. Soa um tanto como letra de fado. “-Senti sua falta” soa aqui mais natural que “-Senti saudade sua”. Inventaram até mesmo um tal de “banzo”, uma saudade menos digna que a nobre saudade portuguesa, para justificar a depressão dos escravizados. O estúpido é achar que essa melancolia diante de uma situação indescritivelmente terrível seja um atributo ou fraqueza étnica. Índios morriam em cativeiro e eram substituídos por escravizados africanos. Servos irlandeses empregados em plantações de cana caribenhas morriam aos magotes, e eram substituídos por escravizados negros. Dizem que até os suíços têm uma palavra específica para a melancolia fatal do imigrante fora dos Alpes. Saudade é um dos sentimentos mais universais que se pode conceber. E de certa forma é até banal.

Por outro lado, é deliciosamente difícil de se encontrar equivalentes para a palavra “bunda” em outras culturas. A palavra brasileira de origem quimbunda tem umas ressonâncias e consonâncias fônicas, gráficas e culturais que são difíceis de transpor a outros idiomas. Se duvidar, ou se ficar donzelamente chocado, procure ler os poemas que Carlos Drummond de Andrade e outros poetas brasicompuseram em louvor a dita cuja.

 

A bunda, que engraçada

 

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda
redunda.

 

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